RESUMO
O desenho curricular tem mudado tanto nas últimas décadas
que já não é possível estabelecer
simplesmente uma lista de matérias- ciências
básicas mais algumas disciplinas clínicas, com
um ano final de estágio — ainda por cima sem
integração. Ele exige ainda programas de educação
contínua do corpo docente. O que é menos aceitável
é que os programas de formação médica
possam ser estabelecidos com a ideia de que se trata apenas
de um negócio. Os Governos devem ter um papel normativo
e controlador sobre a sua qualidade, garantindo a aquisição
de competências sólidas (isto é, conhecimentos
teóricos apropriados, habilidades profissionais, e
a capacidade de raciocínio que tornam esses conhecimentos
e habilidades eficientes). A eficiência deve ser demonstrada
em todos os aspectos de promoção da saúde,
prevenção da doença e diagnóstico
precoce, com a instituição de terapias de qualidade
— as mais simples e precoces — e de processos
de reabilitação convenientes. O desenvolvimento
científico actual deve ser contextualizado no quadro
mais vasto do desenvolvimento sustentável com uma defesa
intransigente dos direitos sociais e humanos onde são
mandatórias decisões baseadas na evidência.
Este artigo tenta estabelecer algumas linhas de força
que conduzam a uma reflexão fundamentada do que são
as estratégias educacionais mais eficientes, baseados
em prioridades de saúde objectivas para cada sociedade
concreta, conduzindo a uma “aprendizagem com significado”:
relevante para os estudantes, para os profissionais de saúde,
para as instituições e, acima de tudo para o
público. Deve ser dada particular atenção
ao desenvolvimento da saúde da comunidade compreendendo
claramente, desde o início da escolarização,
que a saúde é um direito e não uma mercadoria,
e que a qualidade deve ser garantida para todos. Deve ser
ressuscitado o objectivo de Saúde para Todos, hoje
em dia algo perdido (ou intencionalmente escondido). A intenção
destas linhas de força é ajudar os líderes
da saúde e da educação a estabelecer
sistema de saúde e processos educacionais eficientes
que garantam este direito social básico, com qualidade,
num mundo de Paz e Dignidade. Isto especialmente quando os
países mais pobres da actualidade ainda lutam para
desenvolver os seus sistemas de saúde e torná-los
eficientes. As Agências Internacionais devem ousar promover
a agenda da justiça social (que não se confunde
com caridade) e rejeitarem o princípio do negócio
como condutor dos cuidados de saúde. Se há qualquer
respeito pela ciência, devemos reconhecer que não
há nenhum exemplo no mundo onde a saúde para
todos, com qualidade, eficiência, relevância e
equidade, tenha sido alcançada através de sistemas
privados. Estas linhas de força aplicam-se à
educação de todas as profissões de saúde.
Para além disso, do ponto de vista e no âmbito
da sociedade, não há qualquer razão para
se autorizar a abertura de escolas médicas privadas,
a menos que as mesmas se desenvolvam num contexto concreto
de eficiência e de qualidade. As acreditações
devem seguir um processo que visa e termina na qualidade,
e não em “cheques em branco” para a simples
sobrevivência sem demonstração de progresso.
Deve ter-se em mente os números de profissionais de
saúde, a sua qualidade e os respectivos custos, à
medida que nos movemos para um mundo mais humano e partilhado.
ABSTRACT
Curriculum
design has changed over the last decades to the point that
no longer is possible to simply establish a list of subjects
—basic sciences plus some clinical courses with a final
year of internship, all done with no integration. It also
requires programmes of continuous faculty education. Much
less, to accept that MD programs can be established with the
idea that it is a simple business. Governments must have a
normative role and control over its quality, ensuring the
acquisition of solid competences (i.e., proper theoretical
knowledge, professional skills, and the proper reasoning that
will make it efficient). Efficiency must be demonstrated and
the aspects of health promotion, prevention, early diagnosis
with therapies of quality- the earliest the simpler- and with
processes of proper rehabilitation. Today’s scientific
development must be put into the context of sustainable development
with a relentless struggle for social and human rights where
evidence based decisions are mandatory This article attempts
to establish some guidelines that will lead to a proper consideration
of what are the most efficient educational strategies, based
on objective health priorities for a given society with meaningful
learning: relevant to students, health professionals, institutions
and, more so, to the public. Consideration must be given to
community health development, understanding, from the start
of the school, that health is a right, not a merchandise,
where quality must be secured for all. Health for all, a today’s
somehow lost (or purposefully hidden) goal must be revived.
These guidelines and intention are to help health and educational
leaders establishing efficient health systems and educational
processes that will secure this basic social right with quality
into a world of peace and dignity. Particularly when today’s
poorest countries have yet to develop their health system
and to establish its efficiency. International agencies must
dare pushing the agenda of social justice (not to settle with
charity) and rejecting the principle of business as the guide
in health care. If science is to be considered at all, then
yet us repeat that there is no example in the world where
health for all, with quality, efficiency, elevance and equity
has ever been achieved through private systems. These guidelines
may be applied to all health professions’ education.
Furthermore, if done in the context of society there is no
reason why medical schools should be allowed to start privately
unless they are developed in the context of concrete efficiency
and quality. Accreditations must follow a process that ends
in quality and not in blank cheques to simply survive with
no progress demonstrated. The numbers of health professionals,
their quality and costs must be kept in mind while we move
into a more humane and sharing world.
RAEM
2004;1(2):55-76. |