Além
dos deveres sociais que o homem impôs a si mesmo por
meio das leis, existem muitos outros que surgem inesperadamente
do mais íntimo de nossa consciência.
Socorrer
os semelhantes quando se encontram em desgraça, por
exemplo, é uma obrigação que cumprimos
movidos que somos por um impulso íntimo, por um desejo
impetuoso de ajudar o próximo da mesma forma que
queremos que o próximo nos ajude, porque compreendemos
que todos somos irmãos. Esse impulso, esse desejo
está acima de todas as leis que os homens ainda possam
promulgar.
Se
a casa do nosso vizinho está incendiando, não
podemos permanecer impassíveis diante de sua destruição
e um sentimento oculto nos impele a ajuda-lo na contenção
das chamas. Se uma inundação coloca em perigo
iminente uma cidade, nossa ajuda se fará imediata
e espontânea. Se milhares de criaturas ficam sem abrigo
devido a um cataclismo e se centenas de famílias
padecem as consequências de uma epidemia, não
temos de esperar nenhuma ordem para socorre-las na medida
de nossas possibilidades.
Justamente
na rapidez e na espontaneidade da ajuda está a beleza
desta virtude, que se manifesta quotidianamente em muitos
exemplos, um dos quais é o que narraremos a seguir.
No
ano de 1810, na localidade de Morón, povoado
vizinho à cidade de Buenos Aires, residia, gozando
de um merecido descanso, um ancião de setenta e seis
anos, chamado Francisco Xavier Munis. Cercado pelo respeito
e a admiração de seus vizinhos e amigos, o
ancião dedicava suas horas a estudar zoologia, geologia
e paleontologia, assuntos nos quais realizou interessantes
descobertas e achados de grande valor científico,
que logo divulgou em notáveis trabalhos.
O
Doutor Munis, ainda quando era um menino, participou da
defesa da cidade de Buenos Aires, por ocasião das
invasões inglesas, sendo ferido nessas heróicas
jornadas.
Em
1820 formou-se em medicina, cabendo-lhe actuar como médico
nas sangrentas batalhas das guerras que sua pátria
sustentou contra o império do Brasil, em 1826, e
com o Paraguai, em 1865. Tomou parte também nas lutas
civis, sem por isso deixar de contribuir com a sua cultura
e seu entusiasmo para o engrandecimento do movimento científico
que tomava corpo em sua época.
Quando
em 1871 adveio a epidemia da febre-amarela que dizimou a
população de Buenos Aires, sem que nada nem
ninguém o obrigasse a deixar o seu retiro, o velho
médico se transladou para a cidade assolada pela
enfermidade e foi uma das primeiras vítimas do terrível
mal.
Francisco Xavier Munis, que aos setenta e seis anos morreu
como um verdadeiro mártir com a bandeira da caridade,
em meio à epidemia, cumprindo seu dever como médico
e como homem com tanta valentia e abnegação,
legou à humanidade um exemplo realmente digno de
ser imitado pelos demais homens.
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